Quem acha, vê Xavier — Uma fábula para o pós-pandemia

29 de abril de 2020

“O dinheiro que se tem é o instrumento da liberdade; o dinheiro que se tenta obter é o instrumento da escravidão.”

Jean-Jacques Rousseau, Confissões.

Mundo Comum

Muitos anos depois, diante daquele inquisitivo drone branco, Xavier se recordava do dia em que seu pai o levou para fora de casa após o fim da pandemia de 2020–2024. Miçangas era então uma comunidade de poucas casas de tijolos aparentes, construídas na encosta de um morro cercado pela floresta tropical que refrescava as noites e embalava o sono com o suave murmúrio dos insetos na madrugada, como o chiado de uma transmissão fora de sintonia.

Ofuscado pela luz forte do Sol filtrada pela atmosfera carregada de pó do chão de terra batida e partículas de sujeira, Xavier percebeu uma chance de fuga para longe da ameaça representada pelo equipamento voador, por uma fresta debaixo de um arbusto que segurava a cerca após o que se precipitava o barranco íngreme onde seu vizinho cultivava um bananal.

A casa 1984 onde vivia com sua família ficava no limite mais afastado de Miçangas, a comunidade mais pobre do Setor Nordeste, reservado aos que não tinham recursos ou direitos. A situação custava a Xavier noites sem sono, pensando o que fazer sem água encanada ou esgoto, seus filhos frequentaram a escola sem terminarem o ciclo básico. Conversava noite e dia com os mais atentos dos seus vizinhos, procurando uma saída para uma vida mais digna. Sem acesso a vacinação ou emprego, ganhava o alimento de cada dia com bicos ou por recursos compartilhados por quem ainda conhecia o significado da palavra solidariedade e admirava sua dedicação pela comunidade.

Enquanto a voz monótona e entrecortada do drone repetia “Você foi selecionado pelo programa Biohack para um exame corporal e cerebral completo. Deve ser uma honra oferecer suas informações para a Companhia Mundo. Por favor, adote a postura para conexão.”, Xavier transferiu o peso do corpo esquálido para o pé esquerdo e, fazendo um cálculo, com a agilidade de quem luta pela própria vida, escorregou por baixo da cerca, caindo dentro do bananal.

Leviatã

A Companhia Mundo, instituída durante a última pandemia em uma aliança entre as grandes corporações do ramo da tecnologia e os governos da antiga China, EUA, Hungria, Turquia, Belarus, Turcomenistão, Nicarágua e Brasil, foi criada como uma entidade multinacional plenipotenciária, com acesso a todos os dados pessoais e sendo responsável por desenhar e implementar políticas públicas mundiais e também com atuação comercial, controlando a produção e a distribuição de alimentos e concebendo e vendendo produtos e serviços de todos os tipos.

A proposta de criação deste ente todo-poderoso foi aprovada quando prometeram que, desde que concedessem acesso amplo aos seus dados, todas as pessoas do mundo poderiam estar a salvo das vicissitudes da vida, incluindo a perda de rendimentos e questões de saúde, como as que, tremendamente agravadas pela ganância do setor empresarial que se recusou a seguir as orientações dos médicos e pesquisadores para manter o distanciamento e evitar a propagação do vírus, tinham levado tantos amigos, familiares e pessoas próximas por doença ou pobreza. O resto da família se perdeu pelo mundo quando a tempestade solar bloqueou as comunicações e os antigos aparelhos celulares passaram a ter função apenas como álbuns de recordações, durante o que ficou conhecido como o Reset Global de 2030.

Para Xavier, ir ao próprio fundo, conhecer o mais recôndito dos seus desafios, dependia de ter coragem para entrar no sistema. E depois ser capaz de sair dele sem se tornar um alienado. Ele não desejava ser examinado por aquele drone e nem daquela maneira. Uma vez nas mãos da Companhia Mundo temia ter que pagar por tudo, passar por novas e tantas humilhações, marcando ainda mais fundo sua pobre alma.

Assim, com muito medo da ameaça presente e raiva pela humilhação das vezes em que, precisando ter atendidas suas necessidades urgentes e aliviar sua dor, teve seu pedido rejeitado pelos programas de assistência social, Xavier correu por meio das bananeiras e em direção a um galinheiro, com o drone branco zunindo a sirene em seu encalço. Entrando correndo no quartinho de guardar ração, tropeçou em algumas latas de tinta, caiu sobre uma pilha de sucata e desmaiou.

Seu corpo sujo e sofrido e as roupas velhas indicavam a falta de água e itens de higiene pessoal. Xavier era o retrato de uma vida miserável, de quem não tem nem mesmo coragem para pedir ajuda. Seus registros oficiais da Companhia Mundo exibiam inúmeras marcas das vezes em que se recusou a obedecer ou se curvar diante de ordens absurdas e procedimentos burocráticos procrastinadores. Por duas vezes ele e um de seus filhos tinham sido presos por pequenos delitos e a lembrança dos períodos de encarceramento estavam marcados fundo na sua pele, na sua consciência e também nos seus registros oficiais.

Marie

Ao recobrar a consciência, ouviu os latidos dos cachorros da vizinhança e a algazarra estridente das sirenes que soavam. Abrindo lentamente os olhos, discerniu uma pequena luz verde piscando. Assustado, jogou-se para trás apenas para perceber que a luz vinha de uma pequena Marie, velho robô projeto-padrão com um ventilador pulmonar a tiracolo, daqueles que foram construídos para oferecer ajuda aos doentes sem possibilidade de internação, por fábricas que ficaram ociosas na época da grande pandemia. Ficou aliviado. Ele mesmo tinha sido salvo por uma dessas quando era criança e, sozinho em casa, precisou ser entubado e alimentado por sonda durante catorze dolorosos dias, deitado no chão do seu quarto, sem poder ver ou falar com ninguém.

As Maries tinham sido todas desativadas, exceto aquela que parecia ter sobrevivido com seu microchip intacto e o painel solar, suficiente para carregar uma bateria e seguir com sua missão. Ainda assustado, perguntou ao robô se ainda estava funcionando, contou a história e pediu ajuda.

O robô rapidamente analisou todo o ambiente — os drones sobrevoando, o corpo humano à sua frente, as emoções discerníveis a partir de sua expressão, suor, batimentos cardíacos — e disse: “Não há nada que possa fazer agora, Xavier. Este é o primeiro exame de Biohack na comunidade e você deve submeter-se a ele. Mas tenho uma solução para a sua angústia pela vulnerabilidade que te aprisiona. Se permitir, injetarei em você uma carga de nanorrobôs que te permitirão aproveitar a oportunidade e obter a senha do banco de dados da Companhia Mundo, com todos os números e os protocolos para acessar o que é seu de direito.

Aquilo seria a solução para todos os seus problemas. Xavier poderia finalmente conhecer as informações sobre a parcela dos recursos existentes no planeta que seria sua por direito, incluindo os recursos minerais, impostos, políticas públicas e muito mais. De posse desta chave, seu conhecimento permitiria libertar todos os seus amigos e parentes, que sofriam uma vida miserável em Miçangas. Acenando afirmativamente com a cabeça, Xavier estendeu o braço, aceitando a oferta da Marie.

Com uma pequena incisão, uma partícula contendo milhares de minúsculos nanorrobôs carregados com a programação solidária das Maries foi cuspida por dentro de uma agulha, atingindo a corrente sanguínea do nosso assustado Xavier e preparando-o para a missão a seguir.

Enchendo o peito de ar, ele se lembrou das lições aprendidas no passado que o ensinaram a não levantar a voz contra alguém do sistema para brigar por seus direitos e, tomando coragem, com um sorriso discreto, olhou novamente para sua amiga robô e, virando-se, alcançou a porta do galinheiro.

Fronteira

Com os olhos semicerrados por causa da poeira que subia do chão de terra pelo alvoroço dos cachorros que se agitavam e latiam sem parar, Xavier deu um passo para fora e avistou o drone com seu facho de laser apontando para si. Ajoelhou-se, abaixou a cabeça e expôs a nuca, onde encontrava-se a sua entrada USB humana, adotando a postura para conexão. Sentiu uma fisgada e um leve torpor que teve uma duração dolorosa e acabou, sem aviso, deixando-o com uma leve dor de cabeça.

Abrindo os olhos, percebeu que seu campo de visão havia se transformado como se uma tela de vídeo game tivesse sido instalada, sobrepondo-se ao que estava à sua frente, exibindo sinais e orientações que indicariam as tarefas a serem cumpridas, sempre sob a supervisão do drone branco. Era como se ele estivesse usando óculos de realidade aumentada, só que as imagens vinham de dentro do seu cérebro, sendo apresentadas como se fossem parte da realidade.

Isso lembrou-o de quando procurou a Igreja para cuidar de suas aflições. As primeiras mensagens prometiam solução para todos os problemas e, com palavras doces, davam orientações simples sobre como aceitar Deus em seu coração. Em pouco tempo, percebeu-se jogado em um galpão imenso onde pastores falavam usando sistemas de som potentes, causando medo e oferecendo o remédio, junto com o pedido insistente por seu pouco dinheiro, na forma de dízimos. As palavras eram bonitas, mas o resultado era um só: saia sempre com os bolsos mais vazios e a sensação de ter sido enganado, como um burro amarrado a um cabresto.

Interferências

Dessa vez, contudo, tinha um aliado ou, melhor dizendo, uma legião de minúsculos aliados. Os nanorrobôs, em seu sistema circulatório começaram a agir e ele podia sentir pequenas interferências nas informações projetadas à sua frente, como um grilo falante fora de sintonia a orientar seus passos.

O painel luminoso apresentou a imagem de uma alavanca que abriu uma lista de tarefas a serem cumpridas, ao ser empurrada por Xavier, gesticulando com o braço, como se realmente houvesse uma alavanca ali. Como em um jogo de primeira pessoa, Xavier acompanhou as informações daquele display virtual, ao mesmo tempo em que caminhava subindo ao lado da encosta onde ficava o bananal, pelas trilhas poeirentas da sua vizinhança, enquanto observava atentamente os números, controles, diagramas e flechinhas na tela projetada à sua frente, como em um jogo online.

Com a primeira prova selecionada, Xavier foi guiado de volta à sua casa onde deveria encontrar em seus guardados os cartões de memória com seus documentos pessoais, “para atualização”. Conforme as setas indicando o caminho estavam sendo apresentadas em alta resolução à sua frente, uma interferência enviada pelos nanorrobôs programados por Marie, como um ruído, chamou sua atenção para uma pedrinha no chão, que ele chutou para logo ver a mensagem “KEINES entrou no jogo”, escrita na parte de baixo da tela a sua frente. Amedrontado e receoso de que o drone pudesse ter percebido sua ação de desobediência às instruções, abaixou os olhos e seguiu firme na direção de casa.

Aquele nome, KEINES… Seria aquela uma pista que os nanorrobôs queriam que ele descobrisse e que o levariam a conhecer a senha que abre o banco de dados da Companhia Mundo, contendo tudo o que é seu por direito?

Com a cabeça confusa, entrou pela porta da casa, esgueirou-se até o quarto sem deixar-se perceber por sua mulher que procurava ajeitar a antena e ouvir as notícias da rádio Companhia Mundo, pegou seus cartões de memória de documentos pessoais que entregou ao drone. Este imediatamente tratou de fazer o upload das informações, logo antes de a tela de Xavier ser atualizada, indicando uma segunda etapa e pondo-o novamente em ação.

Mero

Confirmando o aceite para a próxima prova com um clique visual, as setas indicaram a porta de saída que levava à casa do seu vizinho, Mero. Cautelosamente, Xavier seguiu os passos conforme indicado, quando percebeu um galho de aroeira em torno do qual parecia haver novamente uma alteração visual, como quando aquela interferência indicou a pedra no chão. Xavier puxou o galho para ver todo o sistema de navegação do seu painel sendo direcionado para um local muito longe dali e, no marcador do mapa, pode ler o destino: “Darvem”. Quando o ponteiro parou, Xavier percebeu que o mapa mostrava a exata localização de uma empresa chamada Darvem — σχολή εμπειρογνωμόνων αεροναυτικών, localizada na Grécia.

Percebendo aquela ação como uma interferência no programa, um novo endereço foi selecionado para que o ponteiro voltasse para a casa de Mero, o destino programado pelo Biohack de Xavier. Conforme os controles se ajustavam novamente, Xavier pensava sobre o nome daquele destino: Darvem — σχολή εμπειρογνωμόνων αεροναυτικών, quando subitamente o nome foi traduzido e apresentado como: Darvem — Escola de Especialistas de Aeronáutica. O que seria aquilo? Uma escola de aeronautas? Mas a busca foi feita apenas pela palavra Darvem. Darvem… Xavier contentou-se por ora e guardou aquela nova informação com muito cuidado.

Aquilo ainda não fazia nenhum sentido para ele. Sem tempo para mais devaneios, Xavier entrou na casa do vizinho com quem deveria ter o diálogo que seria ditado na tela que se projetava ante seus olhos. Seu vizinho era alto, forte e desajeitado, com um rosto grande e sem alegria.

Depois de algumas perguntas, Mero, que o conhecia há bastante tempo, mas com quem nunca teve boa sintonia, começou a achar estranhas aquelas perguntas assim tão de repente e com aquela formulação meio esquisita, como se viessem de um bot. Xavier percebeu que o vizinho tinha o cenho franzido e olhou fundo dentro dos seus olhos. Aos poucos começou a sentir-se nauseado e procurou recobrar a consciência para desvencilhar-se daquela situação estranha em que era operado como por um ventríloquo. Apertou os olhos e, quando os abriu novamente, viu seu vizinho com meio corpo para fora da janela, sinalizando agitadamente para o drone. Uma dor aguda nas costas fez Xavier cair de joelhos enquanto ouvia, atrás de si, a voz grave de Mero que dizia: “Xavier, você sabe que não deve desobedecer as ordens da Companhia Mundo. Concentre-se nas suas tarefas e logo poderá voltar a sua vida normal.”

Incrédulo, Xavier se virou, levantou os olhos e viu seu vizinho com os olhos arregalados e, como se fosse uma pessoa-robô, Mero permaneceu estático até gritar: “Obedeça! E caia fora da minha casa!

Um Sensate

Com a tela já atualizada, Xavier rolou sobre seu corpo, caindo para fora da casa do vizinho. Levantou-se sacudindo a poeira da roupa e mantendo-se atento às informações sobre a próxima etapa do Biohack, agora indicando um posto de atendimento de saúde. Passando pela porta de entrada, sentou-se na terceira cadeira azul, a primeira que não estava quebrada, olhando para o letreiro onde eram exibidas as senhas para os próximos atendimentos.

Aguardou até que uma seta em sua tela indicando o letreiro piscasse e um atendente gordo, de barba e vestindo um jaleco levantasse a mão, chamando-o para sentar-se à sua frente. O atendente então começou a perguntar-lhe sobre como avaliava a cúpula da Companhia Mundo, o presidente do conselho, os diretores de legislações, de novos produtos etc. Pediu para que Xavier indicasse em uma escala de um a cinco o quanto concordava com cada afirmação sobre o desempenho e o acerto das medidas comerciais e políticas tomadas mais recentemente.

Xavier estava tenso e preocupado, lembrando-se do que acontecera com seu vizinho. Assim, procurando manter a respiração e os batimentos cardíacos sob controle, respondeu a cada uma das perguntas, sempre elogiando os membros da Companhia Mundo. Mas, à medida que as perguntas eram feitas, ele percebeu um leve sorriso de canto de boca no atendente, que parecia divertir-se com as suas respostas falsas. Começou a suar e pressentiu uma nova punição a ser infligida pelo drone, de sentinela na porta do posto de atendimento.

A figura barbuda do atendente levantou-se, Xavier arregalou os olhos, mas manteve-se estático. Então, o rapaz aproximou-se do ouvido de Xavier e disse: “Fique tranquilo. Você está fazendo bem. Sei o que está passando. Eu também estou procurando a chave para o banco de dados. Agora, deixe essa última pergunta sem responder e siga-me.”

Xavier, muito assustado e olhando a sua volta, começou a seguir o atendente que o levou a uma saleta sem janelas, pediu para sentar-se, serviu um copo d’água e disse: “Você parece estar com a carga certa de nanorrobôs-Marie e teve a sorte de escapar do Mero. Agora ouça bem: quando tiver todas as pistas, deve lembrar-se disso: a cada pista, a última letra, menos a palavra-chave.” Repetiu mais uma vez e, em seguida gritou bem alto: “O que você está pensando?! Você deve obedecer a mim, que sou o representante da Companhia Mundo neste posto, está bem entendido?!” Deu uma piscadela, abriu a porta, sinalizou para que Xavier saísse e voltou-se para o pad que estava sobre a mesa, digitando o número cinco e concluindo o questionário.

O Passarinho Azul

O que estava acontecendo? Devo obedecer? Mas o que ele disse? “A cada pista, a última letra, menos a palavra-chave…” Pelo menos quanto à Marie, ele parecia estar em boa companhia. Mas já não dava mais tempo, a tela em seu campo de visão já indicava a próxima etapa do tal Biohack a ser cumprida. Procurando mostrar tranquilidade, Xavier dirigiu-se à porta, seguindo as setas que pareciam agora conduzi-lo a uma encosta de sua comunidade onde, por trás de uma grande pedra, alguns moradores se arriscavam plantando raízes, frutas selvagens e outras plantas alucinógenas e curativas.

No caminho, Xavier ouviu um pio e, olhando para o lado, viu um passarinho azul que, em pleno voo, olhava fixamente para ele enquanto cantava “piiii-piiii-pi, pi-piiii, pi-pi-pi, pi-piiii-piiii, pi-pi, piiii-pi”, repetindo o mesmo canto até que ficasse gravado em sua memória. O canto não era comum, mas dessa vez não parecia haver uma nova pista. Ou será que tinha perdido algum detalhe? A não ser que fosse… Sim, aquilo devia ser uma mensagem em Código Morse e, se fosse, deveria significar, ops! Perdido em suas divagações, Xavier quase errou uma entrada e o drone o repreendeu, com uma nova agulhada nas costas que doeu um bocado.

Xavier sabia que não podia xingar o drone nem mentalmente, então respirou fundo e focou no caminho, levando até um ponto distante da comunidade, onde havia a plantação comunitária clandestina. Lá chegando, esbaforido, encontrou três dos micro fazendeiros, usando chapéus para se proteger do sol inclemente, herança dos últimos anos em que a emissão de dióxido de carbono manteve-se alta demais, prenunciando os eventos climáticos extremos que passaram a ser comuns.

Arando a terra dura e molhando com um pouco de água da chuva que reservavam em uma pequena cisterna um pé de limão cravo, quatro ou cinco pés de abacaxi, uma mirra, vários pés de madioca, um canteiro de pimenta, duas moitas de canabis sativa, outra de chacrona, um cipó bem grosso que descia grudado à pedra e mais algumas plantas alimentícias não convencionais, os fazendeiros mostraram-se aflitos com a chegada dos visitantes.

Uma a uma, as mensagens na tela orientaram o olhar de Xavier para que pudesse registrar e analisar de perto as folhas e os caules que determinariam as espécies ali cultivadas para avaliar se eram permitidas ou proibidas. Em seguida, Xavier começou uma entrevista com um dos humildes fazendeiros, que respondeu pacientemente suas perguntas, sem desconfiar de nada. Quando ia dirigir-se ao segundo, um outro, que tinha os olhos claros e cabelo liso, intercedeu-se no seu caminho e disse: “Posso ajudar?”

O painel então ajustou-se e orientou para que as perguntas fossem feitas ao solícito fazendeiro de olhos claros. Conforme perguntava, Xavier se esforçou para parecer natural pois não queria derrapar agora. Já na segunda pergunta, sobre a utilidade daquele cipó grosso e esquisito que crescia em volta da pedra e que eles cuidavam com tanto esmero, o fazendeiro pôs a mão do bolso de onde retirou uma chave com que raspou a casca do cipó e, apontando com ela para cima, indicou o azul do céu, olhando fixamente nos olhos atentíssimos de Xavier, sem uma palavra.

O Porco

Tendo concluído a entrevista com o último dos fazendeiros, a tela indicou o quarto destino de Xavier, o caminho da filial da loja física da Companhia Mundo em Miçangas, aquele lugar para onde se ia, caso houvesse necessidade de comprar produtos ou serviços físicos ou digitais ou no caso de haver a necessidade de atualizar algum aplicativo para controle da Companhia Mundo.

Xavier, perturbado com os últimos acontecimentos, seguiu tentando discernir o significado do gesto do fazendeiro de olhos claros, entender o que uma escola de especialistas de aeronáutica tinha que ver com tudo aquilo e, ao mesmo tempo, desvendar o Código Morse enviado pelo passarinho azul: piiii-piiii-pi, pi-piiii, pi-pi-pi, pi- piiii-piiii, pi-pi, piiii-pi. Mas parecia que subitamente ele podia traduzir o Código Morse de cabeça! Curto, longo, curto: letra R; longo, longo, longo: letra O; longo, longo, curto, longo: letra Q; curto, curto, longo: letra U; curto, curto: I; e longo, curto: N. R-O-Q-U-I-N. ROQUIM! Exultou-se.

Xavier juntou tudo o que tinha até aquele momento. KEINIS, DARVEM e ROQUIN. A cada pista, a última letra, menos a palavra-chave. Mas aquilo ainda parecia muito confuso. Como ele desvendaria aquelas pistas? Cético, perguntou-se se aquela antiga Marie no galinheiro ainda estava funcionando bem.

Chegando à loja, esperou em pé à porta até ser chamado por uma mulher muito bonita vestida de enfermeira, que o encaminhou para uma sala com um equipamento grande onde havia uma cadeira como as de dentista. Xavier sentou-se, conforme orientado, e a simpática enfermeira lhe falou: “Parabéns! Esta é a última etapa do seu Biohack. Agora você só precisará permitir que entremos em suas amigdalas cerebrais, franqueando acesso às suas emoções. Podemos começar?

Minhas emoções?!!! Que maluquice era aquela?!!!”, apavorou-se Xavier. Assentiu com a cabeça ao mesmo tempo em que desesperadamente procurava uma saída para aquele último teste que poderia por tudo a perder, até perceber sua atenção sendo chamada para um sinal tremeluzente em sua tela que indicava um pontinho no mapa da comunidade. Enquanto a enfermeira o ajustava no equipamento, imobilizando-o pelos braços e pernas e ajustando um anel em torno de sua cabeça, a mente de Xavier seguiu aquele pontinho que ia em direção ao chiqueiro de Miçangas, até um porco grande e gordo e, entrando por seu ouvido, encontrou as amigdalas do suíno.

Com os olhos fechados, Xavier concentrou-se naquela parte do sistema nervoso do porco, agarrando-se à possibilidade de ser ele a ter suas emoções invadidas e devassadas. O processo foi doloroso e a vibração do equipamento causou-lhe náuseas. Quando finalmente a enfermeira desligou o aparelho, concluindo o exame, Xavier vomitou. Sentindo-se fraco, limpou a boca na manga da camisa, desculpou-se e saiu cambaleando, sem olhar para a enfermeira, que parecia confusa com aquele resultado adverso.

Chegando novamente à rua, a tela de Xavier mostrou uma luz branca e uma mensagem gentil dizendo: “Obrigado por sua colaboração. Você é o motivo maior da existência da Companhia Mundo. Com as suas informações seremos capazes de oferecer melhores produtos e políticas públicas de acordo com o seu perfil. Tenha um bom dia.” e a tela se apagou.

Conforme abriu os olhos e percebeu que sua visão havia voltado ao normal, a claridade da luz do Sol filtrada pela nuvem espessa de poeira refletiu nas antenas desalinhadas que enfeitavam as lajes em Miçangas e o lembrou do fazendeiro de olhos claros, apontando a chave para o céu. A chave do fazendeiro! O que isso poderia significar? Uma chave que aponta para o céu… A chave… A chave! Sim, a chave, a palavra-chave é “céu”! Só pode ser!

Burcalem

Atônito, Xavier olhou para os lados, encontrando um equipamento para carregamento de cartões de acesso a serviços públicos. Ele sabia que era proibido utilizar esses equipamentos para outras finalidades, mas sabia como fazer isso facilmente para o seu propósito: ter acesso às informações tão valiosas que a Companhia Mundo não permitia que ninguém como ele, conhecesse.

Cautelosamente Xavier lançou-se na direção do equipamento, pronto para utilizar os códigos que guardara em sua mente e acessar o poderoso banco de dados que indica todos os recursos da Terra a que cada um tem direito. Com um sorriso no rosto, começou a digitar os códigos, quando foi surpreendido por um policial da Companhia Mundo que o alvejou com um raio.

Ferido e com os movimentos paralisados, Xavier foi jogado em um cercado atado a um pequeno veículo que, após receber as orientações do policial, imediatamente seguiu pelas ruas estreitas até chegar à autopista que levava até Burcalem, a prisão mais tenebrosa do Setor Nordeste.

Do ambiente sujo, insalubre e violento dessa prisão, poucos escapavam com vida. Xavier viu-se jogado em uma cela do nível sete, enterrado sete níveis abaixo da superfície da terra, lugar reservado para os que fraudavam os rígidos protocolos de acesso a recursos da Companhia Mundo, e chorou ao sentir que a grande chance de se ver livre de sua vida miserável, escorria como areia fina por entre seus dedos.

Seus companheiros de cela, além dos cadáveres que eram retirados apenas uma vez por semana, estavam desesperados pois sabiam que do nível sete ninguém saia com vida. Eram monstros ainda mais brutalizados pelas condições a que estavam submetidos.

Depois de semanas sendo agredido, cansado, com frio e sem nem mesmo conseguir acesso à água suja, servida apenas uma vez por dia, ou à ração de comida que não era digna nem de porcos, Xavier permitiu que suas pálpebras caíssem. Deitado em um cantinho escuro da sua cela, sua respiração que já estava muito fraca cessou e seu coração maltratado parou de bater. O único a perceber sua passagem foi aquele a quem chamavam de Abutre. Magro e com os dentes projetados para fora da boca, este ser quase não humano, especializou-se em roubar os pertences e comer os pedaços mais macios assim que um de seus companheiros de cela dava seu último suspiro.

Sorrateiramente, Abutre debruçou-se sobre o corpo inerte de Xavier e, quando levantou a pálpebra para alcançar um de seus olhos, macio e suculento petisco que esperava avidamente a morte para roubar e sorver, deu um pulo para trás. Pela ação dos nanorrobôs comandados pela Marie, fazendo a gestão da sua energia vital, a pupila de Xavier se contraiu, mostrando que ainda havia vida naquele corpo.

Em modo de gestão de energia, o corpo de Xavier, que já era esquálido e agora ainda completamente desidratado e desnutrido, tornou-se tão fino que, sob os olhos incrédulos de Abutre, deslizou como líquido e conseguiu esgueirar-se por uma fresta da parede, descendo pelo encanamento e renascendo em uma sarjeta, do outro lado do Setor Nordeste.

A Chave

Emergindo por uma boca de lobo, Xavier ainda teve forças para erguer seu corpo, quase sem peso, para fora e sentou-se na calçada, sob uma fina chuva que caia e, com os olhos fitos no infinito, foi sorvendo aquelas gotas que, aos poucos hidrataram o seu corpo, permitindo que que seus órgãos recobrassem as funções e os pensamentos retornassem.

Lentamente, Xavier começou a se lembrar de tudo: o drone branco… A Marie no quartinho do galinheiro… As provas… As pistas… As pistas! KEINIS, DARVIM e RÓQUIN! E a chave? Qual era a chave? “CÉU!”, gritou logo antes de perceber o risco que ainda corria e a oportunidade que tinha pela frente depois de ter passado por tudo aquilo.

Percebendo que ninguém o observava, olhou para o lado e viu um drone branco da Companhia Mundo estacionado em modo de espera. Sorrateiramente, seguiu até ele e inseriu sua senha pessoal, ganhando controle sobre o equipamento de propriedade da Companhia Mundo. Agora precisava descobrir se a chave que tinha estava correta. O que o atendente tinha dito mesmo? A cada pista, a última letra, menos a palavra-chave. Era isso! Vamos lá!

Cada uma das pistas: KEINIS, DARVIM e ROQUIN. A última letra de cada uma: S, M e N. Menos a palavra-chave, que é CÉU… Como subtrair letras? Como se faz S menos M…? Talvez transformando as letras em números a partir da sua posição no alfabeto! Sim, boa ideia! Assim, Xavier calculou mentalmente a soma das últimas letras de cada uma das pistas. S (=19) mais M (=13) mais N (=14) dá 46. E subtraiu cada uma das letras da palavra-chave. 46 menos C (=3) dá 43, menos E (=5) dá 41, e menos U (=21) dá 20. 43–41–20. Uma senha de seis dígitos! Era isso o que o banco de dados da Companhia Mundo pedia quando, no passado tentou acessá-lo para saber como obter os remédios que poderiam ter salvado a vida de um de seus irmãos.

434120. Xavier digitou a senha na tela do drone e, ante seus olhos estupefatos, viu o início do download do banco de dados diretamente para a sua mente! Que incrível! Não podia acreditar. Olhando em volta, Xavier mal podia esperar pelo fim daquele processo. Após alguns instantes, percebeu que já conhecia as leis, os regulamentos, seus direitos, toda a contabilidade das estatais, a estrutura do investimento público, a forma como os impostos eram calculados e como os preços eram formados para cada um dos produtos e serviços existentes.

Depois de alguns minutos, ele já era capaz de dizer a quanto dos recursos existentes no planeta cada pessoa tinha direito, a partir de quando poderia começar a recebê-los e cada um dos passos necessários para isso: instrumentos jurídicos, procedimentos burocráticos, cadastros etc.

Xavier finalmente teria acesso ao que é justo! Teria como receber os benefícios conforme diziam as leis, ter assegurados os seus direitos como todos os seres humanos e ainda ser capaz de driblar com facilidade as miríades de obstáculos que durante toda a sua vida impuseram-se para que pudesse viver com dignidade.

Feliz com sua conquista, começou a digitar naquela tela, habilitando serviços e benefícios e, em poucos minutos, outro drone parou à sua frente lhe entregando um aparelho com acesso à internet local, conforme as políticas públicas criadas ainda durante a última pandemia, para que pudesse acessar os serviços públicos. Abriu o aparelho com sua marca ótica, acessando seu perfil na Companhia Mundo, e notou uma conta bancária aberta em seu nome e com os créditos que há tanto tempo ele lutava para receber. Seus documentos também apareceram todos lá, criptografados e protegidos para serem usados com um piscar de olhos sempre que necessário.

Ainda incrédulo pelas conquistas proporcionadas pelo conhecimento amplo e detalhado sobre o funcionamento das coisas criadas pelo ser humano que adquirira, Xavier deixou o drone no mesmo lugar em que o encontrara, novamente em modo de espera e, com uma tranquilidade que não lhe era familiar, começou a caminhar muito mais confiante pelas ruas deste bairro do Setor Nordeste, onde nunca tinha estado. Quando ouviu queixas de pessoas miseráveis como ele, ofereceu o que tinha de melhor, pois sabia agora como acessar os recursos tão necessários para responder às necessidades não atendidas de cada um. Conforme passava, uma trilha de alívio e alegria pela liberdade alcançada se estendia na forma de pessoas cujos corações se acalmavam, os peitos se enchiam de esperança e os olhos voltavam a brilhar.

Nova Vida

Tranquilamente, Xavier localizou-se usando os recursos de seu aparelho celular, conectou-se com o meio de transporte público mais próximo e indicou a casa 1984 da comunidade de Miçangas para retornar para casa.

Em uma parada para aguardar a travessia de enormes megacaminhões carregados do que fora extraído em uma enorme operação de exploração mineral a poucos quilômetros dali, perto de duas pequenas comunidades como a dele, Xavier olhou para o lado e viu um sujeito de cabelo engomado, vestindo roupas finas e cheias de brilho, sinalizando em sua direção. Abrindo a pequena janela lateral, perguntou como poderia ajudar e o sujeito respondeu: “Está procurando diversão, meu amigo? Tenho tudo o que possa desejar. Desça rápido que minhas garotas vão te levar aos céus.” Xavier não estava para isso. Sentia muita falta de sua mulher e ainda não tinha tido tempo de contar a ela o quanto a vida deles iria mudar. Agradeceu com um sorriso e voltou a olhar para os caminhões, impaciente pela demora, quando foi surpreendido pela figura de cabelo engomado saltando em sua frente, gesticulando e gritando: “Por favor, me ajude! Estou em perigo! Minhas coisas! Meu negócio!

Preocupado, mas intrigado com o desespero daquele homem, alcançou a maçaneta e, abrindo a porta lentamente, viu uma lâmina que se enfiava por entre a fresta do vidro. Tentou fechar a porta, mas já era tarde. O homem puxou a porta, agarrou Xavier pela gola da camisa, jogou-o no chão e, ameaçando-o com sua faca, disse: “Você não me entendeu? Preciso do seu dinheiro e tenho tudo que possa desejar. Drogas, prostitutas, armas, documentos falsos. E então, o que vai ser?

Xavier, deitado de costas para o chão, olhando aquela expressão endemoninhada, fez menção de alcançar seu cartão de memória com dinheiro, mas deu um giro, passou por baixo dos veículos e embrenhou-se por entre os megacaminhões, correndo o risco de ser esmagado. Eram tão grandes que nem percebiam a sua presença. Uma roda passou ao seu lado e quase o esmagou.

Assustado, mas muito alerta, Xavier correu, rolou, desviou e, finalmente, chegou ofegante ao outro lado do comboio coberto de poeira e fuligem. Olhando para trás, ainda podia avistar o brilho das roupas daquela figura, em luta física com um outro que, como ele, seria intimidado e forçado comprar “Tudo o que possa desejar.” Riu-se por dentro e, voltando-se para onde seguia o seu caminho, ativou seu rastreador, chamou agora um meio de transporte ultrarrápido, que custava apenas umas poucas moedas, mas que agora já podia pagar. Ele tinha pressa de voltar para casa.

Avistando a montanha coberta pela floresta tropical que subia além das nuvens de poeira e poluição que se formavam nas proximidades de Miçangas, Xavier começou a descer, fez uma curva e, avistando a casa 1984, pousou na parte dos fundos, descendo rápido, antes que o ultrarrápido decolasse verticalmente.

Alguns vizinhos, de perto e outros de um pouco mais longe, vieram para saber o que aquele veículo estava fazendo lá. Era muito raro que algum deles pudesse utilizá-los. Sua mulher, chegando até a soleira da porta, olhou para ele sem saber se ria ou se chorava. Seus olhos pareciam querer saber se estavam em perigo, mas, ao mesmo tempo, tinham a esperança de sonhar que um dia seriam felizes. Os outros chegavam perguntando onde tinha estado, o que tinha acontecido e, mais do que tudo, ficaram intrigados com o sorriso que Xavier tinha no rosto.

Xavier olhou diretamente nos olhos de cada um deles, caminhou alguns passos, sentou-se à porta da sua casa e anotou em uma placa: “Despachante para a Companhia Mundo. Grátis para os moradores da comunidade.”

Esperança

Conforme recebia os primeiros moradores, que vinham consultar-se, Xavier sonhava junto com eles pela instalação da rede de água e esgoto que a administração do Setor Nordeste prometia há tanto tempo, a implementação dos incríveis projetos arquitetônicos para a melhoria das moradias que uma ONG oferecera a eles há muitos anos e que nunca tinham saído do papel, com o calçamento das ruas, permitindo a drenagem da água e refletindo o calor do sol, as praças e passeios largos e arborizados, abrindo espaços de convivência para os seus moradores, os telhados das casas, cobertos por lajes que esquentavam o ambiente e serviam para abrigar as caixas d’água, antenas e restos de pequenas obras cobertos por lonas, transformados em telhados verdes que ajudariam na absorção da poluição e na produção de oxigênio, amenizando o calor pelo isolamento térmico e pelo microclima que se criaria, evitando as enxurradas, com as chuvas regando milhares e milhares de plantas de todas as espécies, atraindo pássaros e borboletas e embelezando a pequena Miçangas.

Logo, ninguém mais se lembraria de como isso tudo começou e a vida na comunidade seria cheia de vida e alegria. Xavier poderia trabalhar três ou quatro horas por dia, Voltar para casa, banhar-se e sentar-se na varanda para orientar seus filhos sobre os melhores caminhos para uma vida feliz, alimentar-se saudável e frugalmente, inebriar-se com sua mulher e fazerem amor até dormirem um nos braços do outro, confiantes de que no dia seguinte poderiam novamente interagir na sua comunidade oferecendo seus recursos e suas competências para melhorar as vidas uns dos outros.

Mas, uma nuvem de poeira que vinha de longe, acompanhada do alarido de mil sirenes e o barulho de hélices e motores elétricos, indicava que a um alarme tinha soado no escritório central da Companhia Mundo.

O Voo

Em poucos minutos, com o céu coalhado por um sem número de pequenos aparelhos brancos voadores, Xavier discerniu a figura de Mero saindo do bananal e, olhando para a nuvem de drones brancos, acenando afirmativamente. Xavier e seus infelizes circunstantes olharam para o alto desolados e pressentiram o pior.

Jogados no chão por força das armas, cada um dos moradores de Miçangas envolvidos no que a Companhia Mundo classificou como um conluio que ameaçava o seu poder hegemônico, recebeu uma carga por suas entradas USB humanas, permanecendo imóveis.

Vendo todos submetidos daquela forma cruel e começando a sentir a enxaqueca que já lhe era familiar e prenunciava o fim, Xavier concentrou-se em Marie e, percebendo as alterações produzidas pelos nanorrobôs ainda presentes, seguiu um pontinho no mapa da comunidade, transportando sua mente em um voo até o galinheiro onde uma galinha garnisé de pescoço fino olhava estática para o além, a partir de seu ninho de palha.

Xavier então, aceitou o comando sugerido e iniciou a transferência daquela imensa carga de informações do banco de dados da Companhia Mundo para o pequeno sistema nervoso da penosa, que, após um cacarejo estridente, levantou-se abruptamente, revelando um bonito ovo marrom cintilante.

FIM


PS: Para chegar até o momento de escrever este breve texto literário, comecei com uma série de conversas com alguns amigos que me ajudaram com perspectivas, resultando em Contar histórias e dar sentido ao mundo pós-pandemia de Covid-19 e A Jornada do Herói no mundo pós-Covid-19.

OBS: Publicado originalmente no Medium do autor e reproduzido aqui com autorização.



Rodrigo Bandeira

Rodrigo Bandeira

Consultor em projetos de articulação intersetorial, governança social e inteligência de informação para tomada de decisão. Mestre em Administração Pública e Governo e graduado em Administração de Empresas pela FGV-SP e especializado em Administração para o Terceiro Setor pela New York University.