Quem inova o setor público no Brasil?

9 de julho de 2019

A pergunta “Quem inova o setor público?” pode nos limitar a pensar que alguém sozinho realizará essa tarefa. Isso não vai acontecer. Serão necessários múltiplos atores e uma capacidade de colaboração enorme. Ainda assim, essa pergunta é importante para entendermos quais são os papéis e as motivações centrais desses atores que fazem a inovação acontecer no setor público.

É necessário dizer que a inovação não é um lugar onde vamos chegar. Inovar deve ser uma prática diária para que servidores públicos trabalhem da melhor forma e entreguem os serviços que os cidadãos precisam. Inovar é uma necessidade básica para a instituição pública que pretende ser relevante neste século.

A inovação é como alimentar-se… Se você parar de comer, você morre. No entanto, comer mal pode trazer problemas. Dietas malucas, nem pensar.

Se a inovação é como a alimentação, o setor público pode considerar alguns “grupos de alimentos” para seguir a vida inovando. Cada grupo tem seus pontos prós e contras:

A. Grandes empresas de TI

As maiores inovações que conhecemos no último século estão nas TIC – tecnologias de informação e comunicação. São empresas de tecnologia, nacionais, multinacionais e estatais, que comandam e controlam grande parte das estruturas de hardware e software no setor público. Por terem bastante poder e influência, carregam grande capacidade de inovar e transformar o setor. Ao mesmo tempo, podem impedir mudanças significativas quando a inovação representar uma perda de mercado.

?? Prós: Inovação estrutural e tecnológica.

?? Contras: Decisões demoradas, grandes investimentos.


B. Consultorias tradicionais

Em uma época de mudanças constantes, as grandes consultorias podem contribuir muito com a compreensão do que está acontecendo no setor público e para onde se deve seguir. Uma boa consultoria pode permitir que a inovação aconteça sem que a máquina tenha que ficar parada e os riscos sejam altos demais. Em alguns casos, pode haver pouco espaço para co-criação genuína com as instituições.

?? Prós: Diagnósticos completos e definição de estratégias

?? Contras: Baixa replicabilidade e engajamento


C. Terceiro setor – Associações e Fundações Privadas

Historicamente, pioneiros no formato de prestação de serviços públicos finalísticos. Associações e fundações são fundamentais para inovação no setor público. Fundações de grandes empresas e alianças estratégicas entre os portadores de grandes fortunas, tem possibilitado a criação e execução de inovações positivas.

?? Prós: Alta escala, menor gasto público direto.

?? Contras: Alta segmentação e grupos de influência fechados.


D. Startups

Através da criação e uso de tecnologias e processos de trabalho modernos. As chamadas startups conquistaram um espaço relevante na inovação do setor público. Da “porta pra fora” e “da porta pra dentro”, soluções cada vez mais úteis, viáveis e desejáveis estão disponíveis para felicidade geral da nação.

?? Prós: Soluções avançadas de alto impacto.

?? Contras: Baixa capacidade de operar em modelos de negócios públicos.

Foto de Peter Bond no Unsplash

E. Consultores Individuais

Atuando como especialistas, alguns consultores são peças-chave para inovação no setor público. Alguns aparecem com frequência em projetos e costumam estar presentes em eventos relacionados. Muitos deles atuam e mais de uma das categorias apresentadas aqui no texto e podem até fazer parte do quadro de servidores públicos.

?? Prós: Alta flexibilidade para contratação.

?? Contras: Presença de aventureiros e oportunistas.


F. Empreendedores Públicos

Uma categoria de inovadores em ascensão. Aqui encontramos servidores públicos que lutam a batalha diária de inovar no setor público e em suas carreiras, especialmente nos últimos 5 anos, tiveram oportunidade de consolidar modelos de pensar, linguagens e métodos para fazer a inovação acontecer – vale dizer que a WeGov tem causado impactos positivos com esse grupo. Alguns servidores já são consultores ou formalizaram startups.

?? Prós: Imersos na realidade e próximos dos desafios.

?? Contras: São parte do desafio.


G. Movimentos de renovação política

Cada vez mais frequentes, esses grupos compostos por jovens bem orientados por técnicos e figuras influentes, têm conseguido resultados impactantes no campo da inovação política. Apresentando-se de forma suprapartidária, com agendas focadas em superar desafios complexos, surgem aqui novas formas de articulação política.

?? Prós: Influenciar a política.

?? Contras: Ser influenciado pela política.


H. Cidadãos

Somos todos nós, o tempo todo.Cada cidadão pode fazer sua parte para inovar, especialmente em seus comportamentos e no modo de pensar serviços públicos. Melhorar um país é trabalho de todos. Entender o setor público como um grande aliado para a inovação é fundamental. Lembrando que neste grupo, especialmente, estão todas as pessoas dos outros grupos, essa condição é inegociável.

?? Prós: Vida real. A razão de existir de todas as instituições públicas são os cidadãos

?? Contras: Distância dos decisores e descrença com as instituições.


Quem inova o setor público?

Cada grupo é responsável por uma parte dessa arte de inovar o setor público. As instituições devem equilibrar muito bem “as suas dietas” para que o “prato da inovação” seja completo e nutritivo. 

O custo da “dieta de um só grupo” e o pressuposto de que se pode ter um grupo protagonista de toda inovação é alto. Não podemos depositar todos os ovos na mesma cesta. Os diferentes interesses e origens podem revelar inovações holísticas mais poderosas e atender um público ainda maior.

Para nós, a inovação transformadora só acontecerá quando todos os grupos trabalharem de forma colaborativa, entregando o que possuem de melhor e trazendo suas limitações como um ponto de vista para enriquecer o processo.

Em uma dieta, é melhor comer de tudo, isso é sabedoria popular. Sorte das instituições públicas, pois o cardápio está aumentando.

Alimente-se bem, afinal, como diz o título de um famoso livro do início do século XXI: “Você é o que você come!”

Foto de Dan Gold no Unsplash


André Tamura

André Tamura

Pai e Marido. Fundador e Diretor Executivo da WeGov. Empreendedor entusiasta da inovação no setor público e das transformações sociais. Estudou Administração de Empresas e Ciências Econômicas. Desde que trabalhou como operário de fábrica no Japão, tem evitado as “linhas de produção”, de produtos, de serviços e de pessoas. Em 2017, foi condecorado com a Medalha do Pacificador do Exército Brasileiro.