Um texto sobre o impacto do Programa HubGov para inovação no setor público.

Em 2018, aconteceu em Goiás, um programa de inovação em governo com cinco secretarias do poder executivo, além do Tribunal de Contas do Estado e Assembléia Legislativa do Estado.

Eu estava ansioso, pois já tínhamos feito outros trabalhos com os executivos públicos do Estado e queria que aquela edição do HubGov fosse mesmo poderosa… E foi.

Inovação em governo é um campo em expansão. Existem muitas formas de fazer a inovação acontecer no setor público. O Programa HubGov é uma delas.

O HubGov foi criado a partir de processos de aprendizagem e da abordagem do Design Thinking. No programa, times de servidores passam pelas etapas de imersão, ideação e prototipação. Com foco misto entre aprender novas competências para inovar em governo e construir um projeto que possa ser implementado.

O que é ser inovador?

Conforme os conteúdos do HubGov vão se revelando, as pessoas vão aprendendo a utilizar técnicas e ferramentas de inovação e cada uma constrói um significado próprio para o seu trabalho (projeto) ser inovador.

Claro que um programa de três meses não é suficiente para “ser inovador”, mas o HubGov tornou-se um gerador de significados de inovação, com muitos cases posteriores que nasceram durante os trabalhos e beberam da fonte do HubGov.

As ferramentas e metodologias para inovação estão cada mais abundantes, há grupos que compartilham boas práticas a cada minuto, sendo assim, o pragmatismo e a observação da sua realidade são mais necessários para transformar as situações indesejáveis em desejáveis.

A inovação no setor público não é um lugar que se alcança. As instituições não vão atingir, comprar ou possuir a inovação em governo. É necessário que os servidores incorporem o espírito inovador e saibam reconhecer de que forma podem fazer o trabalho, aproveitando todo conteúdo que tem acesso e todo o privilégio de poder inovar sem que o risco da extinção bata à porta o tempo todo.

É melhor saber pouco e usar tudo, do que saber muito e não usar nada.

ANDRÉ TAMURA

Uma das coisas mais gratificantes de se trabalhar com inovação em governo é ver a multiplicação de pessoas inovadoras. Elas nos mostram que (i) temos um trabalho importante e (ii) estamos no caminho certo.

Algumas pessoas tornam-se fundamentais e em momentos difíceis – como esses que estamos passando – são as responsáveis por manter a minha sanidade e seguir inovando. Obrigado 🙏.

Inovação em Governo – Modos de Fazer


Publicado originalmente no eBook: #1 Inovação em Governo – do Pequi Lab, Laboratório de Inovação do Governo de Goiás.

Por André Tamura

Pai e Marido. Fundador e Diretor Executivo da WeGov. Empreendedor entusiasta da inovação no setor público e das transformações sociais. Estudou Administração de Empresas e Ciências Econômicas. Desde que trabalhou como operário de fábrica no Japão, tem evitado as “linhas de produção”, de produtos, de serviços e de pessoas. Em 2017, foi condecorado com a Medalha do Pacificador do Exército Brasileiro.

O Programa HubGov é o carro-chefe da WeGov. De forma simples e objetiva, o programa é destinado às instituições que querem propor soluções inovadoras e criativas a desafios institucionais complexos. Tudo isso pensado de maneira colaborativa e feito em co-produção com os servidores públicos da instituição. 

Em 2019 o HubGov completou 2 anos. Desde o começo, já foram formados 456 HubGovers (como gostamos de chamar os participantes do programa), 81 times de servidores públicos e 43 instituições. 

As modalidades foram InCompany – em que fizemos  com a Justiça Federal de Santa Catarina, Justiça Federal do Espírito Santo e Tribunal de Contas do Espírito Santo – e MultiCompany – com 14 instituições em Santa Catarina em 2017, 25 instituições em 2018 entre São Paulo, Santa Catarina, Goiás e Brasília. 
E, para fecharmos 2019 com chave de ouro, encerramos a 9ª e maior edição do HubGov até hoje: A Jornada da Inovação – Método HubGov com Senado Federal e ENAP.

A proposta foi ousada. Para Ilana Trombka, diretora-geral do Senado:

”Um dos desafios desta gestão é incorporar essa prática [inovação] à cultura da Casa, de modo a propiciar um serviço cada vez melhor aos que aqui trabalham e à comunidade”.

Ilana Trombka

Usualmente, no HubGov formamos times que imergem em um desafio real da instituição e, ao longo de uma trilha de aprendizado, prototipam uma proposta de solução a esses desafios. Para escalarmos ainda mais o impacto do programa, formamos duas grandes turmas – sendo a primeira com 10 times interinstitucionais (8 do Senado Federal e 2 do Ministério da Economia) e a segunda com 10 times do Senado Federal.

Além dos HubGovers, também realizamos uma trilha em paralelo voltada para formação de mentores. Os mentores foram os responsáveis por acompanharem os times durante todo o ano de 2019. Para tal, todos passaram por uma trilha de aprendizado diferente dos participantes da Jornada, mais focada em sua formação como facilitadores e multiplicadores de projetos de inovação.

”A Jornada nos mostra que o setor público está se reinventando, buscando soluções para os desafios e criando práticas que alegram o coração de nós servidores e nos propicia o aprendizado, a colaboração e a ação, pois temos uma missão: servir o cidadão com excelência! Imbuídos desse propósito, agradeço muito aos visionários que tiveram a ideia e os que apoiam, pois inovar é preciso!”

Fernanda Camargo – Mentora na Jornada da Inovação – Método HubGov

Para condução das atividades contamos com uma parceria estratégica do Núcleo de Apoio à Inovação (Nainova) do Senado Federal, que, nas palavras da Diretora-Geral, deve atuar ”como um catalizador de competências e de novas soluções para velhos problemas”. 

Ao longo de quase 1 ano de Jornada, enfrentamos diversos desafios que foram desde às áreas administrativas da casa até atividades parlamentares. Os grupos se engajaram ativamente, propondo ideias e dando o melhor para entregar ótimos resultados à instituição.

E nós não poderíamos ter sido mais exitosos. Do final da Jornada, resultamos em 18 propostas de solução inovadoras para o Senado Federal, sendo destas 2 que já foram implementadas, 5 com projetos prontos para implementação e 8 em fase de testes de protótipo.

E como todo bom projeto, não poderíamos deixar de agradecer aos grandes parceiros que somaram esforços com a WeGov para entregar o melhor resultado possível: à Diretoria-Geral do Senado Federal, representados por Ilana Trombka e Márcio Tancredi, que acreditaram – e acreditam – que a inovação deve ser um recurso indispensável à gestão pública eficiente. Ao Nainova, que se entregou completamente ao projeto e deu todo o apoio aos participantes. À ENAP por ter viabilizado o programa e por ter sido uma incentivadora da inovação.

Mas nosso agradecimento mais especial é para eles: os 162 servidores públicos que se desafiaram por completo e que abriram suas mentes a uma nova forma de enxergar o trabalho público. 

Como sempre, o HubGov não acaba quando termina. E com a Jornada da Inovação, isso não será diferente. As atividades encerraram, mas os bons projetos devem seguir para que possamos transformar, de forma transparente e verdadeira, a realidade do setor público brasileiro. 

Por Ana Camerano

Ana é formada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Trabalhou no 3º setor como diretora de projetos sociais na cidade de Florianópolis. Tem experiência de voluntariado e estágio em países da América Latina e acredita que temos muito a aprender com os nossos vizinhos. Responsável por parcerias e relacionamento com o cliente, encontrou na WeGov uma maneira de impactar positivamente a sociedade através da co-produção e colaboração no setor público.

Nos trabalhos da WeGov, é comum termos na mesma sala pessoas de diferentes setores, áreas de conhecimento, experiências e percepções distintas sobre a inovação no setor público. Em alguma etapa, os trabalhos revelam – em nível individual, projetual ou global – três coisas sobre a inovação no setor público

1. Inovar é confuso

Em quase todos esses trabalhos, enquanto estamos fazendo as exposições e conduzindo as atividades, as pessoas demonstram desconforto e podemos perceber expressões de confusão. Algumas inclusive verbalizam isso.

Eu fico animado e tento explicar:

“Vocês estão recebendo uma quantidade grande de informação e executando as atividades sob uma nova forma de trabalhar no setor público. Essa nova forma funciona de um modo bem diferente da lógica que vocês estão acostumadas. Diante disso, a reação comum mais esperada e mais humana das pessoas é mesmo ficarem confusas.”

É praticamente impossível ter um entendimento completo sobre inovação. Workshops e programas de inovação servem para os indivíduos e grupos desenvolverem um novo modo enxergar o próprio trabalho, superar as barreiras imaginárias e aumentar as habilidades para delinear problemas reais (do presente e do futuro), propondo assim soluções mais adequadas à sociedade atual.

Para cada participante é dada uma permissão para assumir responsabilidade e autonomia de tomar uma decisão. No entanto, a não-linearidade do processo de inovação gera confusão. Geralmente, uma pessoa confusa se ausenta da responsabilidade de tomar decisões e busca um caminho conhecido, seguro e sem riscos.

2. Inovar é arriscado

Inovar é arriscado, sabemos disso.

Imagine que você está em um jogo e precisa escolher o que fazer em cada um dos cenários.

Cenário A: Você prefere a certeza de perder R$100 ou uma aposta que dá 50% de chance de perder R$200 e 50% de não perder nada?

Cenário B: Você prefere a certeza de ganhar R$100 ou uma aposta que dá 50% de chance de ganhar R$200 e 50% de não ganhar nada?

Se você é parte de 90% das pessoas que jogou esse jogo, respondeu que faria a aposta no cenário A e não faria a aposta no cenário B.  Ambos os cenários tratam da nossa propensão ao risco.

As pessoas só assumem riscos quando vão perder alguma coisa. Daniel Kahneman e Amos Tversky dizem, em sua teoria da perspectiva, que as pessoas são propensas a arriscar quando há uma possibilidade de perda.

Para um servidor público, “perder alguma coisa” pode ser extremamente subjetivo. Na maioria dos casos, os mecanismos e incentivos de reconhecimento para inovação se apresentam na forma do Cenário B: se você não fizer nada, você ganha; se fizer, e errar, você perde. O serviço público está perdendo por não se arriscar, com a ilusão de que está ganhando.

Além dos mecanismos e incentivos, temos uma narrativa cruel com servidores públicos que desejam inovar e assumem riscos. As pessoas ainda entendem inovação como algo supérfluo (com razão em alguns casos), que deve ser feito a partir do momento em que tudo estiver funcionando perfeitamente. Trago uma verdade: esse dia não vai chegar.

3. Inovar é ilegal

“Inovar no setor público é ilegal, por definição.” Eu ouvi essa frase em 2015, de uma pessoa que tenho muito respeito e admiração. Ao longo dos anos, a frase colou como um mantra nas conversas sobre inovação no setor público.

A princípio provocativa, a frase pode ser uma armadilha perigosa, pois reforça uma postura engessada padrão de não buscar novas caminhos para o setor público. Além disso, contribui para consolidar a narrativa que mantém uma percepção negativa da sociedade sobre esse profissional: o servidor público é aquele que não fará nada além do previsto, não resolverá o meu problema, mesmo em circunstâncias em que poderia fazê-lo.

Hoje, quando escuto a frase, gosto de pensar nos “fora-da-lei”, insurgentes e inquietos que têm trabalhado forte para mudar a cara do setor público. São os “loucos” que mudam o mundo

Um inédito mais do mesmo

Seguimos contribuindo com essa comunidade de inovadores públicos cada vez mais fortalecida. O desafio atualmente é de manter-se consistente em duas frentes: atrair novas pessoas para a cultura de inovação e avançar a agenda para os já “convertidos”, que querem mais resultados.

Temos que construir a capacidade de manter, ao mesmo tempo, duas ideias opostas na mente: a forma como o setor público opera e a forma como a inovação acontece. E, ainda assim, conservar a habilidade de funcionamento deste setor.

Se está arrumado, ordenado e explicado não é inovador, é certo e seguro. A inovação é confusa, arriscada e “ilegal”.

Que a inovação esteja conosco!

Photo by Alice Achterhof on Unsplash

Por André Tamura

Pai e Marido. Fundador e Diretor Executivo da WeGov. Empreendedor entusiasta da inovação no setor público e das transformações sociais. Estudou Administração de Empresas e Ciências Econômicas. Desde que trabalhou como operário de fábrica no Japão, tem evitado as “linhas de produção”, de produtos, de serviços e de pessoas. Em 2017, foi condecorado com a Medalha do Pacificador do Exército Brasileiro.